terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O dia da criação


Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciadas
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

Vinicius de Moraes

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Outro lugar




Cê sabe que as canções são todas feitas pra você E vivo porque acredito nesse nosso doido amor Não vê que ta errado, tá errado me querer quando convém E se eu não estou enganado acho que você me ama também O dia amanheceu chovendo e a saudade me contem O céu já tá estrelado e tá cansado de zelar pelo meu bem Vem logo que esse trem já tá na hora, tá na hora de partir E eu já to molhado, to molhado de esperar você aqui Amor eu gosto tanto, eu amo, amo tanto o seu olhar Andei por esse mundo louco, doido, solto com sede de amar Igual a um beija-flor, que beija-flor, De flor em flor eu quis beijar Por isso não demora que a historia passa e pode me levar E eu não quero ir, não posso ir pra lado algum Enquanto não voltar Não quero que isso aqui dentro de mim Vá embora e tome outro lugar Talvez a vida mude e nossa estrada pode se cruzar Amor, meu grande amor, estou sentindo Que esta chegando a hora de dormir...
Milton Nascimento

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Outros Sonhos


Sonhei que o fogo gelou

Sonhei que a neve fervia

Sonhei que ela corava

Quando me via

Sonhei que ao meio-dia

Havia intenso luar

E o povo se embevecia

Se empetecava João

Se impiriquitava Maria

Doentes do coração

Dançavam na enfermaria

E a beleza não fenecia
Belo e sereno era o som

Que lá no morro se ouvia

Eu sei que o sonho era bom

Porque ela sorria

Até quando chovia

Guris inertes no chão

Falavam de astronomia

E me jurava o diabo

Que Deus existia

De mão em mão o ladrão

Relógios distribuía

E a polícia já não batia

De noite raiava o sol

Que todo mundo aplaudia

Maconha só se comprava

Na tabacaria

Drogas na drogaria

Um passarinho espanhol

Cantava esta melodia

E com sotaque esta letra

De sua autoria

Sonhei que o fogo gelou

Sonhei que a neve fervia

E por sonhar o impossível, ai

Sonhei que tu me querias


Chico Buarque

quarta-feira, 26 de agosto de 2009


Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas... (Machado de Assis)

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Metade...


E que a força do medo que tenho, não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito não me tape os ouvidos nem a boca

Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio

Que a música que eu ouço ao longe, seja linda, ainda que triste

Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada mesmo que distante

Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade

Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece, nem repetidas com fervor, apenas respeitadas, como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos

Porque metade de mim é o que ouço, mas a outra metade é o que calo

Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço

Que essa tensão que me corre por dentro seja um dia recompensada

Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão

Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo, se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita em meu rosto, um doce sorriso, que me lembro ter dado na infância

Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito

E que o teu silêncio me fale cada vez mais

Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço

Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba

E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê - la florescer

Porque metade de mim é a platéia, e a outra metade é canção

E que a minha loucura seja perdoada,

Porque metade de mim é amor, e a outra metade...também


Oswaldo Montenegro

terça-feira, 23 de junho de 2009


Aturdido por duas saudades colocadas de frente uma para a outra como dois espelhos, perdeu o seu maravilhoso sentido de irrealidade até que terminou por recomendar a todos que fossem embora de Macondo, que esquecessem tudo o que ele ensinara do mundo e do coração humano e que cagassem para Horácio e que em qualquer lugar em que estivessem se lembrassem sempre de que o passado era mentira e que a memória não tinha caminhos de regresso, mas que toda a primavera antiga era irrecuperável e que o amor mais desatinado não passava de uma verdade efêmera!


Do maravilhoso Cem anos de Solidão!!!!!


Hipótese


E se Deus é canhoto e criou com a mão esquerda? Isso explica, talvez, as coisas deste mundo!!! (Carlos D.)