quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Outro lugar




Cê sabe que as canções são todas feitas pra você E vivo porque acredito nesse nosso doido amor Não vê que ta errado, tá errado me querer quando convém E se eu não estou enganado acho que você me ama também O dia amanheceu chovendo e a saudade me contem O céu já tá estrelado e tá cansado de zelar pelo meu bem Vem logo que esse trem já tá na hora, tá na hora de partir E eu já to molhado, to molhado de esperar você aqui Amor eu gosto tanto, eu amo, amo tanto o seu olhar Andei por esse mundo louco, doido, solto com sede de amar Igual a um beija-flor, que beija-flor, De flor em flor eu quis beijar Por isso não demora que a historia passa e pode me levar E eu não quero ir, não posso ir pra lado algum Enquanto não voltar Não quero que isso aqui dentro de mim Vá embora e tome outro lugar Talvez a vida mude e nossa estrada pode se cruzar Amor, meu grande amor, estou sentindo Que esta chegando a hora de dormir...
Milton Nascimento

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Outros Sonhos


Sonhei que o fogo gelou

Sonhei que a neve fervia

Sonhei que ela corava

Quando me via

Sonhei que ao meio-dia

Havia intenso luar

E o povo se embevecia

Se empetecava João

Se impiriquitava Maria

Doentes do coração

Dançavam na enfermaria

E a beleza não fenecia
Belo e sereno era o som

Que lá no morro se ouvia

Eu sei que o sonho era bom

Porque ela sorria

Até quando chovia

Guris inertes no chão

Falavam de astronomia

E me jurava o diabo

Que Deus existia

De mão em mão o ladrão

Relógios distribuía

E a polícia já não batia

De noite raiava o sol

Que todo mundo aplaudia

Maconha só se comprava

Na tabacaria

Drogas na drogaria

Um passarinho espanhol

Cantava esta melodia

E com sotaque esta letra

De sua autoria

Sonhei que o fogo gelou

Sonhei que a neve fervia

E por sonhar o impossível, ai

Sonhei que tu me querias


Chico Buarque

quarta-feira, 26 de agosto de 2009


Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas... (Machado de Assis)

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Metade...


E que a força do medo que tenho, não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito não me tape os ouvidos nem a boca

Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio

Que a música que eu ouço ao longe, seja linda, ainda que triste

Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada mesmo que distante

Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade

Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece, nem repetidas com fervor, apenas respeitadas, como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos

Porque metade de mim é o que ouço, mas a outra metade é o que calo

Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço

Que essa tensão que me corre por dentro seja um dia recompensada

Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão

Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo, se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita em meu rosto, um doce sorriso, que me lembro ter dado na infância

Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito

E que o teu silêncio me fale cada vez mais

Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço

Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba

E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê - la florescer

Porque metade de mim é a platéia, e a outra metade é canção

E que a minha loucura seja perdoada,

Porque metade de mim é amor, e a outra metade...também


Oswaldo Montenegro

terça-feira, 23 de junho de 2009


Aturdido por duas saudades colocadas de frente uma para a outra como dois espelhos, perdeu o seu maravilhoso sentido de irrealidade até que terminou por recomendar a todos que fossem embora de Macondo, que esquecessem tudo o que ele ensinara do mundo e do coração humano e que cagassem para Horácio e que em qualquer lugar em que estivessem se lembrassem sempre de que o passado era mentira e que a memória não tinha caminhos de regresso, mas que toda a primavera antiga era irrecuperável e que o amor mais desatinado não passava de uma verdade efêmera!


Do maravilhoso Cem anos de Solidão!!!!!


Hipótese


E se Deus é canhoto e criou com a mão esquerda? Isso explica, talvez, as coisas deste mundo!!! (Carlos D.)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Surte!


Toda mulher tem o direito de surtar. Dar piti. Jogar umas coisas no chão e chorar. De preferência em casa, pra não ameaçar o patrimônio público, mas às vezes também acontece na rua, fazer o quê? É simples: as mulheres são seres cíclicos, com altos e baixos hormonais. Tem Tensão Pré-Menstrual, Tensão Menstrual, Tensão Pós-Menstrual. A culpa é toda dos hormônios. Não podemos controlá-los. Então, desculpe, temos o direito. Até porque o ato de surtar pode trazer grandes benefícios quando usado com moderação e até prevenir doenças como câncer, úlcera, estresse e tédio profundo. É por isso que as mulheres têm a vida mais longa do que os homens. Eles (“eles” quase todos) guardam tudo, acham que surtar é coisa de mulher. E é mesmo, mas e daí? Se ficar guardando tudo vai acabar como aquele senhor, tendo um dia de fúria. Todo mundo deveria extravasar de tempos em tempos para evitar maiores danos. Quem sobrevive guardando no peito aqueles dias frios em que você pisa de meia no chão molhado, ou em que o miojo cai todo na pia quando você vai tentar dar aquela escorridinha, ou em que a ex-namorada sem amor-próprio do seu amor fica ligando doze vezes consecutivas para perturbar a paz alheia, ou em que você passa horas no trânsito sem bateria no iPod, ou em que os pagamentos não entram – mas as contam sim - , ou em que ninguém te escuta, ou em que o gato faz xixi no tapete da sala pela décima vez, ou em que a internet não funciona, ou a calça não entra mais, ou em que você acerta o delineador e borra a cara inteira, ou tudo isso reunido no mesmo dia infeliz? O que mais pode uma dama fazer a não ser jogar tudo para cima e chorar lágrimas incontidas de ódio até secar? Depois passa e você se sente melhor, livre das toxinas das lágrimas e aliviada por não ter engolido todas aquelas coisas ruins, pronta para sair para a vida com os cabelos esvoaçantes, a alma livre e a pele viçosa. Mas também não vai achar que é pra sair surtando nos outros a toda hora por qualquer coisinha; isso causaria uma reação em cadeia de surtos e sabe-se lá o que poderia acontecer. Surte, mas surte direito. Só quando precisar.


Clarah Averbuck